Quando o ego fala mais alto: Burrego critica presença da PM no hasteamento e amplia desgaste

Presidente da Câmara demonstrou insatisfação por não participar diretamente do hasteamento das bandeiras no 7 de Setembro

O que deveria ser um momento de civismo, reconhecimento e união acabou transformado em mais um capítulo da crise política envolvendo o presidente da Câmara Municipal de Conceição do Jacuípe, Carlos Augusto Pereira, conhecido como Burrego (PSD).

Durante a sessão ordinária desta quarta-feira (9), Burrego manifestou insatisfação com o fato de não ter participado diretamente do hasteamento das bandeiras realizado no último 7 de Setembro, em frente à Prefeitura. Na solenidade, um capitão da Polícia Militar participou do ato ao lado da prefeita Tânia Yoshida, enquanto outra representação ficou a cargo do vice-prefeito, Yasomi Yoshida.

Segundo o relato do pronunciamento feito na Câmara, Burrego considerou desrespeitosa a decisão de não colocá-lo naquele espaço. É justamente aí que surge uma pergunta inevitável: por que transformar uma homenagem institucional à Polícia Militar em uma disputa pessoal por protagonismo?

A farda naquele momento não representava apenas um homem. Representava policiais que diariamente saem de casa para enfrentar ocorrências, combater a criminalidade e proteger a população, muitas vezes colocando a própria vida em risco.

A PM tem motivos para ser reconhecida

A crítica se torna ainda mais difícil de compreender diante dos resultados recentes apresentados pelas forças de segurança na região. Balanço divulgado pela 66ª CIPM, responsável por Conceição do Jacuípe, Amélia Rodrigues, Terra Nova e Teodoro Sampaio, apontou redução de 47,1% nos crimes violentos durante o primeiro semestre de 2026 em sua área de atuação.

Em junho, o próprio comandante da unidade, major Rosuilson, esteve na Câmara e apresentou avanços como reforço do efetivo, ampliação da frota e redução dos índices de homicídios na área atendida pela companhia. Naquela ocasião, a atuação da Polícia Militar foi reconhecida pelos vereadores.

Se homens e mulheres que trabalham diariamente pela segurança da população não podem receber destaque em uma solenidade cívica sem que isso seja interpretado como afronta política, alguma coisa está fora do lugar.

Burrego chama grupo de Tânia de povinho
Imagem produzida com o auxílio de inteligência artificial.

Cargo público não é sinônimo de superioridade

O episódio ganha ainda mais repercussão porque acontece em meio a declarações anteriores atribuídas ao próprio presidente. Na sessão desta quarta-feira, Burrego chamou antigos aliados do grupo da prefeita Tânia Yoshida de “povinho” e afirmou que a população teria que “engoli-lo”, em referência à sua força eleitoral.

De fato, os números confirmam que Burrego foi o vereador mais votado de Conceição do Jacuípe nas duas últimas eleições: recebeu 1.250 votos em 2020 e 1.560 em 2024.

Mas uma votação expressiva não concede a nenhum agente público o direito de se colocar acima dos eleitores, das instituições ou de outras autoridades. Voto é mandato para representar; não é salvo-conduto para arrogância.

Cada eleição tem sua própria história. Quem conquistou votos ontem continuará dependendo da confiança popular amanhã. Desmerecer aliados que ajudaram a construir uma caminhada política, ou tratar a população como se devesse aceitar silenciosamente qualquer postura, pode ser um erro político de grandes proporções.

A homenagem não diminui ninguém

A presença de um representante da Polícia Militar no hasteamento não retira a importância do Poder Legislativo. Pelo contrário: uma solenidade republicana pode e deve reconhecer diferentes instituições que servem à sociedade.

O próprio Burrego foi eleito presidente da Câmara para o biênio 2025-2026 com os votos dos 13 vereadores da Casa, demonstrando que recebeu amplo respaldo político para exercer a função.

Justamente por ocupar um posto tão relevante, espera-se do presidente equilíbrio institucional, capacidade de diálogo e compreensão de que nem todo ato público precisa girar em torno de quem ocupa determinado cargo.

Transformar a participação de um policial militar em motivo para indignação passa uma mensagem ruim. A sociedade espera que seus representantes reconheçam quem presta um bom serviço, independentemente de vaidades ou divergências políticas.

Conceição do Jacuípe precisa de instituições dialogando, forças de segurança valorizadas e representantes públicos preocupados em resolver problemas. Não precisa de uma disputa permanente para saber quem aparece mais, quem manda mais ou quem deveria estar segurando uma bandeira.

Criticar faz parte da democracia. Questionar também. Mas o respeito às instituições precisa vir antes do ego.

E talvez a principal reflexão deixada por esse episódio seja simples: o cargo passa, a eleição termina e o poder muda de mãos. A forma como cada representante tratou o povo e as instituições, porém, permanece na memória.

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