TRADIÇÃO: Sem Lavagem do Bonfim, Bahia fica sem ‘termômetro’ político

A mais tradicional festa religiosa e popular da Bahia, a Lavagem do Bonfim, não será realizada pelo segundo ano consecutivo. Depois de ser suspensa em 2021, este ano a cerimônia foi cancelada por conta do aumento nos números de casos da Covid-19 e outras síndromes gripais. Em ano eleitoral, a ausência do cortejo e da lavagem das escadarias da Igreja do Bonfim tiram de circulação o desfile de políticos que buscam cativar eleitores.
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Na tradição baiana, a Lavagem do Bonfim é uma espécie de “termômetro” em anos eleitorais. As comitivas de políticos e postulantes a cargos caminham no meio do povo em uma espécie de lançamento de campanha.
Candidatos percorrem os oito quilômetros do cortejo que tem início na Igreja da Conceição da Praia até a Colina Sagrada. Cercados de apoiadores políticos, aqueles que buscam votos aproveitam para se aproximar do eleitorado.
“A festa do Bonfim, enquanto marco sócio-antropológico de um momento entre sagrado e profano, se tornou uma forma de visibilidade pelo tamanho. Ela é muito popular e faz parte da organização social e política dos territórios de Salvador”, diz o cientista político e pesquisador da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Claudio André Souza.
Souza explica que, ao longo das décadas, a Lagavem do Bonfim assumiu o papel de espaço organizacional que estabelece o contato dos grupos políticos com a população, característica que também se transferiu à festa da Independência da Bahia, no 2 de Julho. “Nas últimas duas décadas, de fato, a festa do Bonfim se tornou momento de visibilidade pública de lançamento de candidaturas”, completou.
A festa do Bonfim possui 277 anos de tradição. Ao longo desse período, apenas a pandemia do coronavírus foi capaz de suspender a tradição por dois anos consecutivos. O evento acontece na segunda quinta-feira do mês de janeiro, sempre planejada também como palanque político.
Pré-candidatos na Bahia
O g1 ouviu dois pré-candidatos ao governo da Bahia sobre a ausência da Lavagem do Bonfim na corrida eleitoral. Para o ex-prefeito de Salvador e presidente do Democratas, ACM Neto, a caminhada é um momento de reconhecimento.
“Sinto falta da festa, daquela energia incomparável, do banho de folha que lava a nossa alma, da caminhada da Igreja da Conceição da Praia à Colina Sagrada, do encanto dos turistas e do carinho que a gente recebe dos baianos durante todo o percurso”, comentou.
Na última quarta-feira (12/1), Neto utilizou suas redes sociais para contar que testou positivo para Covid-19. Se não fosse o coronavírus, estaria com sua estrutura política montada para seguir até a Igreja do Bonfim. “Em ano de eleição, esse contato com as pessoas é muito mais do que um termômetro de popularidade. É esse reconhecimento que recarrega as nossas energias e enche a gente de força para enfrentar um ano que será de muito trabalho e desafios”.
ACM Neto participou da Lavagem entre 2013 e 2020 como prefeito de Salvador — Foto: Max Haack/Secom
Senador e ex-governador do estado por dois mandatos, Jaques Wagner (PT-BA) considera a Lavagem do Bonfim como um momento de agradecimento. Ele destacou a importância dos encontros na caminhada, mas disse separar a parte política da religiosidade.
“Sinto falta da caminhada, das conversas, dos encontros. Mas não há vínculo ao ano eleitoral. Embora reconheça que os políticos têm de estar onde o povo está, não misturo festa religiosa com eleição”, disse.
Entre 2007 e 2014, Jaques Wagner participou da Lavagem como governador da BA — Foto: Manu Dias/SECOM
O pré-candidato petista disse considerar a lavagem como a data mais representativa da Bahia. “É a festa mais simbólica, significativa e emblemática da Bahia. Uma caminhada de agradecimento e devoção. O próprio hino ao Senhor Bonfim é um agradecimento à vitória da Bahia e do Brasil em 2 julho de 1823”, disse ao g1.

 

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G1 Bahia

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