“Fui buscar meu filho morto”: pai de jovem ameliense cobra justiça após acidente de trabalho em Feira de Santana

Marlon Amorim de Souza, de 22 anos, morreu durante o expediente em uma fábrica de pré-moldados.

A dor de perder um filho se transformou em uma busca por respostas para Manoel Pereira, pai de Marlon Amorim de Souza, de 22 anos, que morreu após sofrer um acidente de trabalho na manhã de quinta-feira (3/9), em uma fábrica de pré-moldados localizada às margens da BR-324, no bairro Limoeiro, em Feira de Santana.

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Marlon era morador de Amélia Rodrigues. Ele trabalhava como ajudante prático de pré-moldados na empresa Gal Premoldados.

Segundo informações da Polícia Civil e relatos de testemunhas, o jovem foi atingido e prensado por uma estrutura metálica durante o expediente. Ele chegou a ser socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e levado para o Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA), mas deu entrada na unidade por volta das 10h20 já sem vida.

Para a família, entretanto, a principal pergunta permanece sem resposta: o que exatamente aconteceu com Marlon?

“Fui buscar ele morto”, relata pai de Marlon

Em meio à dor, Manoel Pereira fez um relato emocionado por meio de um vídeo nas redes sociais sobre a rotina que tinha com o filho. Segundo ele, Marlon era saudável e trabalhava diariamente, saindo de casa ainda nas primeiras horas da manhã.

O pai conta que fazia questão de levar o filho até o ponto para que ele pudesse seguir para o trabalho. “Eu fazia questão de levar ele no ponto pra pegar o transporte, pra ir pro trabalho, pra voltar, eu ia buscar também. Então, nesse dia que eu levei ele, fui buscar ele morto”, relatou.

Manoel afirma que acorda no mesmo horário todos os dias e, por vezes, ainda espera pela mensagem que o filho costumava enviar. “É o horário que meu filho saia pra trabalhar. Trabalhador, 5h50 da manhã, ele saía pra trabalhar. Cada dia que passa eu não vejo meu filho, a dor só aumenta.”

Mãe de Marlon questiona segurança da empresa

Abalada a mãe de Marlon questionou por meio de uma entrevista as condições de segurança na empresa. Em um relato marcado pela indignação e pela dor, ela afirmou que, segundo informações, outros acidentes já teriam ocorrido no local. “Não é o primeiro, nem o segundo que morre aí dentro e eles não fazem nada. Nada”, disse.

Ela descreveu a dimensão da estrutura que teria atingido o filho e ressaltou a gravidade do acidente. “Meu menino morreu esmagado. Vocês tenham noção que é um ‘treco’ de 30 metros, de não sei quantas toneladas em cima do meu menino, de 22 anos, gente.”

A mãe ainda questionou a forma como a família teria sido recebida após a tragédia. Ela afirmou que o pai, uma prima e a esposa de Marlon foram buscar informações e que teria havido dificuldades até mesmo para obter informações básicas sobre a empresa.

“Agora tá com conversa bonita, querendo que a gente entre no escritório. Só cinco familiares pra entrar pra conversar.”

Família quer justiça e esclarecimentos

Além da dor provocada pela perda, Manoel afirma que a família quer entender se houve alguma falha que possa ter contribuído para o acidente.

O pai reforça que não busca apenas explicações, mas que eventuais responsabilidades sejam apuradas e, caso sejam comprovadas, que os responsáveis respondam pelo ocorrido.

“Temos que averiguar, eu e a família, nós queremos justiça. Nós queremos saber o que vai acontecer”, afirmou.

Manoel também pediu que as investigações esclareçam se houve algum problema envolvendo a empresa, equipamentos ou outras circunstâncias relacionadas ao acidente. “Nós só queremos esclarecimento. […] Esclarecimento do que aconteceu exatamente com o Marlon. Se tem errados, que paguem. É isso que a gente quer, mais nada.”

MPT abre inquérito para investigar a morte

O Ministério Público do Trabalho (MPT) instaurou um inquérito para apurar as circunstâncias da morte de Marlon. O procedimento pretende verificar as causas do acidente e se houve eventual descumprimento das normas de saúde e segurança do trabalho que possa ter contribuído para a morte do trabalhador.

O MPT deverá solicitar informações aos órgãos envolvidos na apuração, além de analisar documentos e eventuais laudos técnicos produzidos durante as investigações.

Uma equipe da Auditoria-Fiscal do Trabalho esteve na empresa após o acidente para realizar averiguações e coletar informações sobre as condições em que as atividades eram executadas. A investigação também deverá avaliar as medidas de segurança adotadas pela empresa e o cumprimento das normas destinadas a proteger a saúde e a integridade física dos trabalhadores.

Sindicato relata possíveis problemas em equipamentos

O Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Feira de Santana e Região (STIM) lamentou a morte de Marlon e informou que esteve no local após tomar conhecimento do acidente. Segundo o sindicato, trabalhadores fizeram relatos sobre possíveis problemas relacionados à manutenção e ao funcionamento de equipamentos da fábrica.

A entidade também informou que, segundo depoimentos de funcionários, teria havido dificuldade para movimentar as estruturas envolvidas no acidente. O STIM ressalta que essas informações são relatos dos trabalhadores e deverão ser verificadas pelos órgãos responsáveis durante a investigação.

O presidente do sindicato, Thiago Azevedo, defendeu uma apuração rigorosa das circunstâncias da morte, incluindo as condições de segurança, a manutenção dos equipamentos e os procedimentos adotados no ambiente de trabalho. O sindicato informou que continuará acompanhando as investigações e prestando apoio aos trabalhadores e familiares de Marlon.

Após o acidente, o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest) foi acionado para acompanhar a ocorrência. A Gerência Regional do Trabalho e uma equipe da Auditoria-Fiscal do Trabalho também estiveram no local.

Segundo funcionários, este seria o terceiro acidente registrado na empresa. A informação, contudo, deverá ser verificada no decorrer das apurações.

O corpo de Marlon foi encaminhado ao Departamento de Polícia Técnica (DPT). A 1ª Delegacia Territorial de Feira de Santana investiga as circunstâncias do acidente.

Bahia registra aumento nas notificações de acidentes de trabalho

O caso ocorre em meio a um cenário de preocupação com os acidentes de trabalho na Bahia.

Um levantamento atribuído à Associação Nacional de Medicina do Trabalho aponta aumento de 65% nos registros no estado entre 2023 e 2025. Segundo os dados apresentados, foram cerca de 7 mil notificações nos primeiros cinco meses de 2026, colocando a Bahia na sétima posição nacional e na liderança do Nordeste em número de acidentes.

Os dados reforçam a importância da fiscalização e do cumprimento das normas de segurança, especialmente em atividades que envolvem máquinas, estruturas metálicas e equipamentos de grande porte.

A morte de Marlon Amorim ainda está sendo investigada. O MPT, a Polícia Civil, a Auditoria-Fiscal do Trabalho e o Cerest atuam em diferentes frentes para esclarecer o caso.

Até o momento, não foram oficialmente atribuídas responsabilidades pela morte do trabalhador. Eventuais falhas ou irregularidades deverão ser confirmadas ou descartadas a partir das perícias, documentos, depoimentos e demais elementos reunidos durante as investigações.

Enquanto as autoridades apuram o que aconteceu, a família de Marlon, em Amélia Rodrigues, enfrenta a perda e cobra respostas.

A família segue aguardando justiça e esclarecimentos sobre a morte de Marlon Amorim de Souza, jovem de apenas 22 anos que saiu de casa para trabalhar e não voltou para sua família.

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