Amostras de vírus desaparecem de laboratório com maior nível de biossegurança disponível no Brasil

Desaparecimento do material foi percebido em fevereiro, e amostras foram recuperadas dentro da própria universidade; pesquisadora suspeita do furto foi presa em flagrante.

As amostras de vírus que teriam sido furtadas do laboratório de virologia da Unicamp foram retiradas de uma área de nível 3 de biossegurança (NB-3), que exige protocolos rigorosos e é, atualmente, o nível mais alto possível para se estudar agentes infecciosos (como vírus e bactérias) em laboratórios no Brasil.

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A informação consta no Termo de Audiência que deu liberdade provisória à professora doutora Soledad Palameta Miller, suspeita pelo desaparecimento do material biológico. A pesquisadora vai responder por expor a perigo a vida e saúde de outras pessoas, por transporte irregular de organismo geneticamente modificado e por fraude processual, de acordo com a Justiça Federal.

Classe de risco 3 é aquela em que o agente infeccioso apresenta alto risco para o indivíduo e risco moderado para a comunidade. São agentes que podem causar doenças graves ou letais, transmitidos especialmente pelo ar, e podem se espalhar na comunidade, embora existam medidas de prevenção e tratamento. Exemplos: Bacillus anthracis e vírus da imunodeficiência humana (HIV). O Orion, primeiro laboratório do Brasil com nível 4 (máximo) de biossegurança está em construção em Campinas, com previsão de ficar pronto em 2027.

A professora doutora Soledad Palameta Miller foi presa suspeita de furtar material biológico de um laboratório na Unicamp — Foto: Reprodução

Miller foi presa em flagrante nesta segunda-feira (23), depois que a Polícia Federal encontrou as amostras virais em laboratórios da universidade usados pela professora. Na decisão judicial, o tipo de material – até então mantido em sigilo pelos órgãos públicos – é tratado como vírus. A defesa da docente afirma que não há materialidade na acusação e que ela utilizava o laboratório do Instituto de Biologia, de onde as amostras foram retiradas, por não possuir estrutura própria.

Com a expedição do alvará de soltura, a professora responderá ao processo em liberdade, mas precisará cumprir regras determinadas pela Justiça:

A docente fica obrigada a comparecer mensalmente à 9ª Vara Federal, pagar uma fiança no valor de dois salários-mínimos, e está proibida de deixar a cidade de Campinas por mais de cinco dias e de sair do país sem autorização prévia
Além disso, foi determinado que ela está proibida de acessar os laboratórios da Unicamp envolvidos na investigação

A Unicamp informou que instaurou uma sindicância interna para apurar o caso.

O caso teve início em 13 de fevereiro, quando amostras de vírus desapareceram do laboratório de virologia do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas. Após investigação, no dia 23 de março, a Polícia Federal do Brasil localizou o material em laboratórios da Faculdade de Engenharia de Alimentos, onde a professora Soledad Palameta Miller atuava. Na mesma data, os espaços foram interditados para o cumprimento de mandados judiciais e a pesquisadora foi presa. Já no dia 24 de março, a Justiça concedeu liberdade provisória à docente e registrou na decisão que o material apreendido se tratava de vírus.

Investigação

A investigação teve início na manhã de 13 de fevereiro de 2026, quando uma pesquisadora autorizada identificou o desaparecimento de caixas contendo amostras virais no Laboratório de Virologia Animal do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas. O material estava armazenado em uma área classificada como nível 3 de biossegurança (NB-3), destinada à alta contenção biológica e submetida a rigorosos protocolos de segurança. Diante dos fatos, a professora Soledad Palameta Miller foi autuada em flagrante por três crimes: uso irregular de organismos geneticamente modificados (artigo 29 da Lei 11.105/2005), exposição da vida ou saúde de terceiros a perigo (artigo 132 do Código Penal) e fraude processual (artigo 347 do Código Penal).

O esquema e o risco envolvido

As investigações apontam que, como Soledad não possuía laboratório próprio na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) nem acesso autorizado aos locais de segurança, ela usava a sua orientanda de mestrado para abrir as portas dos laboratórios para ela, inclusive em finais de semana.

A professora possuía o consentimento prévio de responsáveis por outros laboratórios para utilizar parte de seus freezers.

Riscos à Saúde: A movimentação e o armazenamento do material biológico sensível foram feitos em ambientes não controlados, segundo a apuração. Além disso, houve o descarte de material em lixeiras comuns, o que configurou exposição da saúde de terceiros a perigo direto e iminente, de acordo com o documento da Justiça.

 

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