Dia da Resistência Preta!

Por Joelson Gama

Ontem (19 de novembro de 2020), foi João Alberto da Silveira Freitas!
Homem preto, de 40 anos, brutalmente espancado até a morte um segurança do Carrefour do bairro Passo D’Areia, em Porto Alegre, e um Policial Militar, egressos do Exército Brasileiro. Mesmo com a prisão em flagrante de Magno Braz Borges (o segurança) e Giovane Gaspar da Silva (o PM), Beto, como era conhecido, está morto…
Segunda-feira (25 de maio de 2020), foi George Floyd!
Homem preto, de 46 anos, suplicou a Derek Chauvin, Policial de Minneapolis, nos EUA, para não ser morto! No entanto, Floyd, símbolo estadunidense da luta contra a violência policial, que gritou mais de 20 veses: “I can’t breath!” (Eu não consigo respirar), está morto…
Douglas Martins Rodrigues, está morto!
Claudia Silva Ferreira, está morta!
Eduardo de Jesus Ferreira, está morto!
Roberto de Souza Penha, está morto!
Carlos Eduardo Silva de Souza, está morto!
Cleiton Corrêa de Souza, está morto!
Wilton Esteves Domingos Júnior, está morto!
Wesley Castro Rodrigues, está morto!
Evaldo Rosa dos Santos, está morto!
Luciano Macedo, está morto!
E tantos outros e outras fazem parte das estatísticas, onde 75,7% de todos os mortos violentamente neste país são pessoas pretas ou pardas! E os pretos e pretas que não estão mortos? Aqueles e Aquelas que, mesmo sofrendo todo tipo de violência, permanecem vivos, resistentes, persistentes.
Eu, Joelson Gama, homem preto, jornalista, neopoeta, terranovense, morador de Terra Nova (segunda cidade mais preta do Brasil), incrustada no recôncavo Baiano, e faço parte dos que sobreviveram.
Faço parte dos que, ao passar por não pretos ou menos retintos: percebem a bolsa sendo apertada por medo de assalto; percebem a mudança de calçada por medo de repressão; percebem os olhares de desprezo ao entrar em uma loja; percebem seguranças (pretos) seguindo pelos corredores de lojas e supermercados…
Faço parte também daqueles que toma ‘baculejo’ da PM, apenas por ‘ter cara de bandido’; daqueles que, mesmo qualificados, perdem a vaga de emprego para o menos retinto que estudou menos da metade; daqueles que matam inúmeros animais ferozes diariamente para chegar ao fim do dia e conseguir respirar; daqueles que mesmo sendo bons, precisam se esforçar três, dez, cem vezes mais, para ser alguém na vida…
Voltando a falar de Terra Nova, moro na segunda cidade mais preta do Brasil. De acordo com o site Alma Preta, conforme parâmetros do Atlas, feito por meio de parceria entre o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e Governo Federal, a cidade possui 93,2% de pretos e pardos em sua população, seguida pela vizinha Teodoro Sampaio (92,6%). Mesmo com essa marca histórica e após o enaltecimento da História e Cultura Preta com a realização da Festa Literária de Terra Nova 2019 (NEGRITUDE: A Beleza de ser quem somos!), não temos tanto o que comemorar neste 20 de novembro!
O Dia da Consciência Negra deveria ser momento de fazer uma reflexão sobre as lutas e conquistas dos povos africanos e afro-brasileiros e o impacto que tiveram na evolução da cultura brasileira. Sociologia, política, religião e gastronomia entre várias outras áreas, foram profundamente influenciadas pelas culturas negra e africanas.
No entanto, ontem Beto foi espancado e morto, em maio deste ano, Floyd foi sufocado até a morte, em 1968, Martin Luther King Junior foi morto com um tiro no peito, em 1695, Zumbi morreu com as mãos decepadas e a cabeça decapitada… e tantas homens e mulheres pretas ancestrais que, com seus corpos solidificaram o terreno e com seu sangue lavaram o caminho para que hoje pudéssemos ser vida e viver plenamente!
O que comemorar?
O máximo que podemos fazer é, além de resistir, lutar! Lutar para que os sonhos de Dr, King sejam realizados, para que as utopias de Zumbi seja alcançadas, para que os desejos de nossos pais aconteçam e para que os nossos planos de meninos e meninas pretas se concretizem, mesmo com as opressões violentas, os olhares reprovadores, as atitudes racistas, as ideologias que matam.
Estamos longe de nossa Wakanda preparada pelos nossos mais velhos e mais velhas! Mas, estamos mais perto que nossos pais e avôs… Que sejamos resistência! Que sejamos Pretos e Pretas de poder! Que cheguemos a nossa terra prometida…
Salve o Dia da Resistência Preta!

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