De filho de fumageira ao comando da Educação: conheça a emocionante história de superação de Iranildo Alves
Iranildo carregou latas d’água na cabeça para comprar cadernos, enfrentou humilhações e venceu as dificuldades.

O portal FALA GENEFAX estreia nesta quinta-feira (22) o quadro Extraordinários, uma produção especial que visa mostrar histórias reais de vencedores com o objetivo de motivar e emocionar os nossos leitores. Para abrir essa série com chave de ouro, trazemos a trajetória impactante de Iranildo Alves dos Santos, de 54 anos. Atualmente formado em Pedagogia e atuando como Secretário de Educação de Teodoro Sampaio, ele carrega no peito as cicatrizes e as medalhas de quem venceu muitas dificuldades através dos estudos.
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Contudo, por trás do gestor respeitado de hoje está a história de um menino pobre da comunidade do Picado, em Conceição do Jacuípe, conhecida como Berimbau. Filho de Isabel dos Santos, hoje com 83 anos, Iranildo Alves cresceu ao lado dos quatro irmãos sob os cuidados de uma mãe solo, que sustentava os cinco filhos trabalhando em um armazém de fumo. Enfrentando uma exaustiva jornada de seis dias de trabalho por apenas um de descanso, Isabel transformou esforço e resistência em exemplo dentro de casa. Foi nesse cenário de dificuldades que Iranildo aprendeu, ainda criança, que a educação poderia ser o caminho para mudar o próprio destino.
Além disso, sua mãe cobrava resultados, embora não tivesse tempo de acompanhar as tarefas escolares devido à rotina pesada na fábrica que sustentava tantas famílias da região. Nesse sentido, uma frase dura dita por ela moldou seu caráter para sempre e evitou que ele seguisse caminhos errados.
“Minha mãe sempre me apoiou, mas ela sempre me disse que era para eu ter muito cuidado, porque ela nunca gostaria que a gente a decepcionasse. Quando me perguntam quem me colocou nesta cadeira de secretário, eu respondo na hora: foi a minha mãe! Quando ela reclama que eu sumi por causa do trabalho, eu digo: ‘A culpada é a senhora, que me colocou na escola'”, revela Iranildo, emocionado.

Da lata d’água na cabeça aos jornais espalhados pelo chão
A infância e a adolescência de Iranildo Alves foram marcadas pela dor da escassez. Como resultado de uma vida pautada pela necessidade, ele precisou trabalhar entre os 14 e 16 anos para custear os próprios estudos na antiga Escola Cenecista Nossa Senhora da Conceição.
Por isso, o jovem dava aulas de reforço (“banca”) para crianças da vizinhança e carregava água na cabeça para vender. Com as moedas que juntava, comprava papel pautado, tirava fotocópias de livros emprestados e adquiria a camisa de farda com o escudo exigido pela instituição.
Por outro lado, a paixão pela leitura nasceu de um hábito simples dentro de casa. Sua mãe encerava o chão e forrava o piso com folhas de jornais velhos para ninguém sujar. Consequentemente, o menino deitava no chão e devorava cada notícia. Certa vez, ao visitar Salvador pela primeira vez com uma prima, ele surpreendeu a família ao apontar e reconhecer de longe o Elevador Lacerda, o Mercado Modelo e a Praia de Itapuã apenas pelas descrições que lia no chão da sala.
Aos 19 anos, portanto, ele iniciou sua carreira na rede pública no Colégio Proteção à Juventude, após pedir uma oportunidade ao então gestor João Pimentel Ribeiro — que, mesmo sendo adversário político do jovem na época, reconheceu seu potencial e o contratou junto à professora Glória Vieira.

O fundo do poço no fumo e a reviravolta inesperada
Nem tudo foram flores no início da carreira docente. Diante de uma grave crise financeira que atrasou os salários na prefeitura, Iranildo Alves precisou abandonar temporariamente o giz para sobreviver. Dessa forma, mudou-se para o município de Urandi, próximo à divisa com Minas Gerais, onde trabalhou por um ano e meio como apontador de máquinas na construtora OAS. Lá, os operários se espantavam com sua caligrafia perfeita: “Sua letra é de professor, o que você está fazendo aqui?”, questionavam.
Ao retornar para Conceição do Jacuípe, já com seu primeiro filho e sem emprego, ele ouviu o veredito doloroso da mãe: “Infelizmente, você vai ter que destalar fumo”.

Entretanto, o destino preparava uma reviravolta cinematográfica em 1996. Enquanto destalava trouxas de fumo da empresa Fumex no chão de casa ao lado da mãe do seu filho, a então candidata a prefeita Tânia Yoshida entrou na residência durante uma caminhada política. Imediatamente, ela cruzou o olhar com o jovem trabalhador.
Logo depois, uma colega chamada Lucinha interveio: “Tânia, se você não fizer nada por mim, faça por Iranildo, que você não vai se arrepender”. Assim que venceu as eleições, Tânia cumpriu a promessa. Através do secretário da época, o Padre Aristotelinho, entregou a chave do Ginásio Nossa Senhora da Conceição do Picado nas mãos de Iranildo, nomeando-o vice-diretor. Mesmo trêmulo e sem experiência na gestão, ele abriu as gavetas, estudou cada documento com a ajuda da amiga Rita Cristina e transformou a realidade da escola.
Posteriormente, passou no concurso público municipal e assumiu missões consideradas quase impossíveis em Conceição do Jacuípe. Dirigiu e pacificou unidades escolares em áreas complexas, como os colégios Sérgio Cardoso e Laura Lopes — onde implantou com sucesso o modelo cívico-militar, conquistando o respeito de alunos e famílias.

Em luta pela Educação: A revolução em Teodoro Sampaio
A chegada ao posto de Secretário de Educação de Teodoro Sampaio aconteceu a convite do prefeito João Paulo, que enxergou na “teimosia do bem” de Iranildo a receita para salvar o ensino local. Ao assumir a pasta, o diagnóstico apontava uma verdadeira queda nos índices, e ele lembrou que, lá atrás, já havia reaberto uma creche municipal que estava trancada.
Inconformado com o descaso do passado, o próprio educador arregaçou as mangas: pediu doações de brinquedos e recursos à saudosa empresária Dona Ana Maria (proprietária da Fazenda Santana), lavou as paredes da creche com as próprias mãos junto à sua equipe e tirou as crianças pequenas do convívio com alunos maiores, reabrindo o espaço para a comunidade.
Além disso, ao buscar apoio gratuito da renomada Associação Bem Comum (apoiada pelo Instituto Ayrton Senna e pela Natura), ouviu um “não” inicial pelo fato de Teodoro Sampaio ter apenas cerca de sete mil habitantes. Porém, Iranildo Alves não aceitou a derrota. Criou um podcast dentro da sua própria casa para debater educação e, em um gesto extremo de amor ao município — pelo qual recebeu o título de Cidadão Teodorense —, ligou a câmera do celular e implorou socorro pedagógico à instituição.
A atitude comovente quebrou todas as barreiras. A associação veio ao município, o prefeito João Paulo assinou o termo de cooperação após a insistência firme do secretário, e uma revolução começou sem custar um único centavo aos cofres públicos. Sem verba para contratar gráficas externas, Iranildo montou uma central de impressão dentro da própria secretaria.
Com o apoio técnico do amigo Reginaldo, organizou o VAAR, alinhou a BNCC Computação, reestruturou o quadro docente e lançou projetos inovadores de leitura, como o “Dos Livros às Telas”, que une literatura e tecnologia através de musicais estudantis. Como resultado, Teodoro Sampaio já comemora o crescimento do IDEB e virou caso de sucesso em encontros estaduais.

O amor pelos alunos e o legado da saudade
Pai orgulhoso de quatro filhos — Alesso (dentista), Alícia (colaboradora da Mondial e mãe do seu netinho), um estudante de Engenharia da Computação na Universidade Católica e a jovem Dandara (estudante do CEMEC) —, Iranildo trata os alunos da rede pública como filhos do coração.
Definindo-se pela palavra coragem, fã da música Utopia (de Milton Nascimento), do livro O Pequeno Príncipe e da frase de Santo Agostinho (“Ame e faça o que você quiser”), Iranildo Alves encerra sua participação na estreia do quadro Extraordinários deixando um conselho poderoso para quem pensa em desistir da vida, e revela qual é o seu maior sonho:

“O segredo para vencer é ter vontade e cativar as pessoas. Eu sou duro às vezes, sou teimoso, mas tenho uma causa na vida. A pior coisa do mundo é você morrer e ninguém sentir sua falta. O maior legado que quero deixar é que, um dia, quando eu partir, as pessoas olhem para os meus filhos e para o meu neto e digam: ‘Eu sinto saudade do seu pai’. Tudo o que faço hoje é para deixar saudade no coração do meu povo.”
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