Em carta, ex-patrão acusa filha de roubar doméstica resgatada de trabalho análogo à escravidão

A história da doméstica Madalena Santiago da Silva, resgatada pelos auditores-fiscais do trabalho do Ministério do Trabalho e Previdência (MTP), em março do ano passado, após trabalhar 54 dos 62 anos de idade, sem receber salário, ganhou um novo capítulo nesta sexta-feira (29/4).
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Madalena tem, em seu poder, uma carta de 2018, assinada pelos ex-patrões, onde acusam a filha de ter feito empréstimos no nome da doméstica. Segundo apuração da TV Bahia, o ex-patrão de Madalena já faleceu. De acordo com o MTP, além de empréstimos, a mulher teria ficado com R$ 20 mil da aposentadoria da empregada.
Em trecho de carta doméstica é chamada de 'escrava' e 'mãe preta' — Foto: Acervo pessoal
Madalena é chamada de ‘escrava’ e ‘mãe preta’, em trecho de carta — Foto: Acervo pessoal
Na carta endereçada à filha, o homem faz acusações e diz que ela teria sido insensível por roubar a poupança de Madalena. No trecho, o ex-patrão diz que a doméstica era chamada de “mãe preta”, e cita que a empregada teria cuidado da filha e da neta. Ele ainda diz que Madalena serve a filha como uma “escrava”.
“[Madalena] queria bem como se fosse a sua própria mãe. Então qual o agradecimento e gratidão: retirou toda a sua pequena poupança, produto de uma aposentadoria de 35 anos de trabalho. Não satisfeita no seu instinto perverso, ainda teve a crueldade de consignar empréstimos na sua aposentadoria que variam de 48, 60 a 70 meses. Doloroso!”, diz um outro trecho.
“O choro de dor e desespero da inocente Madalena ao tomar conhecimento do fato, por certo está entregue à misericórdia divina. O preço dessa covardia será resgatado, ainda nesta vida”, completa o homem.
Ao longo da carta, o ex-patrão cita que foi vítima de golpes da filha e Madalena é citada em outro trecho. O homem diz que a filha teve que restituir a doméstica. “Tente mostrar a sua recuperação, pelo menos trabalhando arduamente para restituir a Madalena, pelo menos, o que dela V. subtraiu. Seria uma atitude louvável. O mínimo que V. poderia fazer para aliviar a dor”.
Entenda o caso
Segundo o Ministério do Trabalho e Previdência (MTP), Madalena trabalhou por 54 anos sem receber salário, sendo maltratada pela família para quem trabalhava, em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador (RMS).
Atualmente, Madalena da Silva recebe seguro desemprego e um salário mínimo da ação cautelar do MTP.
A doméstica relatou os maus-tratos sofridos durante os anos de trabalho.
“Eu estava sentada na sala, ela passou assim com uma bacia com água e disse que ia jogar na minha cara. Aí eu disse: ‘você pode jogar, mas não vai ficar por isso’. Aí ela disse: ‘sua negra desgraçada, vai embora agora’, disse Madalena. “Era um sábado, 21h, e eu não sabia para onde ir”, acrescentou.
Projeto de resgate
Neste primeiro ano do Projeto de Combate à Exploração do Trabalho Doméstico, 550 empregadores foram fiscalizados na Bahia. O MTP informou que 90% das denúncias aconteceram em Salvador.
A pena para quem submete trabalhadores à situação análoga à escravidão é de dois a oito anos de reclusão. No entanto, até o momento, nenhum empregador “sujo” ficou preso na Bahia.
O procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho afirma que há esperança que a punição ocorra no mesmo ritmo de crescimento de trabalhadores resgatados. Em 2021, o número cresceu 168% em relação à 2020.

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g1 BA

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