2 DE FEVEREIRO: Pescador investe R$10 mil em barco que vai entregar presente a Iemanjá

Gratidão, amor, devoção e tradição serviram como combustível para o pescador Fernando Lopes, de 44 anos, investir quase R$ 10 mil na reforma da embarcação que navegará com o presente principal à Rainha do Mar, Iemanjá, neste 2 de fevereiro, em Salvador.
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Nesta quarta-feira (2/2), o cenário na praia o Rio Vermelho não deve ser de multidões, devotos com pés na areia, flores e alfazemas nas mãos, porque aglomerações não serão permitidas no bairro devido à pandemia da Covid-19. A festa foi cancelada pelo segundo ano consecutivo e o prefeito Bruno Reis já antecipou que a praia do Rio Vermelho estará fechada.
Apesar do cancelamento, o ponto alto das homenagens à Iemanjá, a entrega do presente coletivo, está mantida e prevista para às 8h desta quarta. Na ocasião, os pescadores se afastam da costa e levam a oferenda de barco.
Fernando Lopes e Valmir Alves (de óculos escuros), em 2021 — Foto: Fernando Lopes/Arquivo Pessoal
Há três anos, Fernando Lopes, que também é professor, fez questão de comprar a embarcação que há quatro décadas é usada para levar o presente principal e coletivo para Iemanjá. O Rio Vermelho, como foi nomeado o barco, precisou de reforma, pois segundo Fernando, é preciso manter essa herança cultural nas homenagens à orixá.
Os R$ 9,7 mil investidos e os 20 dias de espera resultaram em um barco pintado, com tábua do fundo trocada e até uma peça do motor, que havia quebrado, foi substituída.
“Meu sentimento é de gratidão de estar contribuindo com essa tradição, com essa festa que é tão emblemática e grandiosa”.
Neste ano, ele pretende agradecer à Rainha do Mar pela vacina contra a Covid-19. “Nada mais justo do que agradecer o que pedimos ano passado”, afirma.
Apesar de lamentar falta do calor humano e da multidão que tomava conta das ruas do Rio Vermelho antes da pandemia, o pescador garante que nos dois últimos anos, a entrega tem sido mais tranquila.
“A falta da energia do povo é grande, mas a gente ainda sente quando chega na hora do presente. O ato de entregar é muito mais tranquilo, porque não tem outras embarcações ao redor”, revela.
Ao contrário de Fernando Lopes, o pescador Valmir Assunção Alves, conhecido como “Tomate” ressalta que o calor humano é importante para manter a tradição da festa e sem o evento, que reúne milhares de baianos e turistas em Salvador, a vida financeira das pessoas que trabalham durante a festa é impactada.
“O calor humano é muito importante, é a tradição da festa ver aquele monte de gente, os afoxés tocando, os blocos afros, então teve um impacto muito grande. Do vendedor de picolé ao vendedor de cerveja, que leva o sustento para casa”, conta.
Valmir já é um conhecedor da festa. Aos 46 anos, ele detalha que participa do Dia de Iemanjá desde a infância. “Participo da festa desde os 9 anos, porque é uma tradição da minha família. Já tem uns 20 anos que eu levo o presente”
“Comecei a aprender o caminho que o barco fazia por volta dos 12 anos, antigamente não tinha GPS, então a gente tinha que buscar estratégias para lembrar [a rota]”, diz.
Valmir fez aniversário na terça-feira (1°), um dia antes das celebrações da Rainha do Mar e garante que a cada ano é sempre uma emoção diferente.
“Me sinto bem, fico feliz, é uma sensação de paz e conforto para o coração fazer aniversário um dia antes das homenagens para Iemanjá. Ontem completei mais um ano de resistência, porque minha família toda pegou Covid-19 na primeira onda, inclusive eu. Ficamos assintomáticos, mas já estamos bem e vacinados. Iemanjá é uma mãe, que não deixa faltar [nada], me protege na terra e no mar”, ressalta
Depois de 20 anos levando o presente de Iemanjá, ele relembra um fato que se destacou durante a entrega do presente há cerca de quatro anos.
“O que mais me marcou foi entregar o presente sem seu Portela, um amigo nosso que morreu aos 87 anos. Ele era o dono do barco [que levava o presente principal] e sempre estava com a gente. No primeiro ano que entregamos o presente sem ele, eu me emocionei. Botamos a imagem [de Iemanjá] na água, a gente fez uma oração para ele e eu chorei. Pedi para que ele estivesse em um bom lugar”.

 

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