Assim como a bala perdida tem endereço, a exploração da imagem, do corpo e da vida tem cor!

Por Joelson Gama

Foi necessário ter morrido… melhor, foi necessário ter sido brutalmente assassinada, ter sua vida interrompida pelo estado, representado pela política de segurança pública que mais mata no mundo, e ter os seus sonhos, entre eles o de ser mãe, ceifados prematuramente, para que o Brasil conhecesse a história da jovem Kathlen Romeu!
VOCÊ VIU? ARRAIÁ DA CL CONSTRULAR! Confira algumas ofertas especiais disponíveis em todo mês de junho
Diante disso, inúmeros problemas (recorrentes) são novamente colocados em foco: a ação violenta das polícias, a ineficiência do Estado e da segurança pública, a política genocida antidrogas, os corpos e as vidas negras e femininas, o mercado Black Money, a afroafetividade e o amor afrocentrado, e por aí vai…
Me atendo ao caso Kathlen, mais especificamente em como a empresa em que ela trabalhava – uma loja de roupas – ofereceu um cupom de desconto com o nome da jovem vítima do Estado! É possível que está ação de marketing tenha sido uma tentativa de minimizar os prejuízos causados pela morte de Kathlen à sua família! No entanto, um dia após o assassinato, sem respeito algum à memória da futura mãe ou aos familiares e amigos, a loja Farm se apropria de nome, imagem e corpo para se promover econômica e financeiramente.
Nada que me falem poderá justificar, plausivelmente, esta apropriação! Apropriação sim… Quem autorizou? Quem foi consultado? O racismo quer isso… O racismo produz isto! A partir do momento que vc quer, exclusivamente, lucrar sobre um preto ou preta, ou sobre algo produzido pela pessoa preta, à revelia de seu consentimento ou mesmo conhecimento, é atitude racista!
Naturalizar a apropriação do preto ou preta para fins econômicos (independente de quem seja) não é de hoje! Como cita o site Alma Preta Jornalismo, o caso mais recente e, talvez, mais conhecido de apropriação da imagem preta é relacionado a Marielle Franco. Seu nome aparece frequentemente estampado em camisetas, almofadas, adesivos, caderno e sei lá mais o que, onde marcas se beneficiam financeiramente com isso, sem estarem nem aí para quem foi e continua sendo Marielle Franco, como afirma Anielle Franco, Educadora, jornalista, escritora, feminista, mestranda, diretora executiva do Instituto Marielle Franco e irmã da vereadora assassina em 2018.
Como jornalista, o que me incomoda é a infinidade de programa sensacionalista que usam o genocídio da população negra como alavanca para ganhar gerar lucro em canais da TV aberta (o que que me faz lembrar do caso de um deputado estadual amazonense, acusado de ser o mandante de assassinatos para aumentar a audiência de seu programa de televisão e se livrar de criminosos rivais). Mas, o que me incomoda ainda mais, são as empresas que compram espaços publicitários e financiam as práticas de extermínio. Do nosso extermínio… Do extermínio da população preta…
Como reflete o sociólogo, professor da UNEB e militante do Círculo Palmarino, Fábio Nogueira, sobre o esvaziamento da luta do povo preto, símbolos utilizados pelo movimento negro no brasil e no mundo são deslocados e descontextualizados de seu sentido de luta, protesto, política e revolução, a fim de deslegitimar e enfraquecer o movimento. Concomitante a isto, estes programas de TV aberta pautam as tragédias e dores do povo preto deliberadamente, sem levantarem a discussão sobre desigualdade social e racismo estrutural, como pontua Nogueira.
Naturalizar está prática, é naturalizar o racismo! É naturalizar o nosso extermínio! É rememorar as práticas escravocratas! É reviver, nos dias de hoje, o que nossos avós, bisavós, e sabe-se lá mais quantas gerações de nossos antepassados, passaram mas mãos da elite branca e abastada deste país desde!
Diante disso tudo, só posso chegar a uma conclusão: “assim como a bala perdida tem endereço, a exploração da imagem, do corpo e da vida, tem cor!”
Joelson Gama é jornaliste, especialista em Marketing Digital, História e Cultura Afro-Brasileira e Gestão e Políticas Públicas Municipais. Ativista e militante do movimento negro pelo Circulo Palmarino, também é podcaster, escritor e poeta, com composições publicadas na antologia “Girassol por Amélia”.

 

 

Mande fotos e vídeos com os acontecimentos de seu bairro para o WhatsApp do Fala Genefax (75) 9 9190-1606

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Botão Voltar ao topo
Web Statistics