Eik contou que havia acabado de realizar um trabalho como artesão na cidade e retornava para a aldeia. Ele parou para aguardar a poeira baixar depois que um carro havia passado pelo local. Assim que saiu, um pássaro bicou a garganta dele causando um buraco.
O indígena ainda pilotou a moto por quase 9 quilômetros até chegar à aldeia para pedir socorro. Lá recebeu ajuda da família e foi levado para atendimento na Unidade Básica de Saúde, que fica na aldeia.
“Cheguei a desmaiar e a buscar ar”, contou. Depois de receber os primeiros socorros na unidade básica, Eik foi levado de ambulância até a Unidade de Pronto Atendimento de Barra do Bugres.
A técnica de enfermagem Elizete Ariabo Calomezore, que fez os primeiros socorros, contou que nunca tinha atendido nenhum caso parecido.
“Ele puxou o pássaro (que ainda estava na garganta) e começou a sangrar pelo pescoço e pelo nariz. Fiz a limpeza e liguei para o médico, que me passou as orientações para o atendimento. Segui as orientações dele e o encaminhei, com o pássaro, para a médica de plantão avaliar de perto lá em Barra do Bugres”, contou.
O primeiro atendimento foi fundamental para que a situação não se agravasse.
Caso inusitado
O biólogo Vítor Piacentini, professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que também é ornitólogo especialista em aves, disse que o pássaro é da espécie ariramba-preta – nome científico Brachygalba lugubris -, que faz parte de um grupo de aves insetívoras, chamadas genericamente de arirambas, entre outros nomes.
Piacentini explicou que é comum que as arirambas e os beija-flores sejam tratados como “iguais”, já que os dois grupos possuem bico comprido, muitas espécies têm plumagens brilhantes.
“Inclusive o nome cuitelo/cuitelinho é usado regionalmente pra beija-flores, e cuitelo/cuitelão para algumas arirambas. Mas as arirambas são maiores, não param no ar (nem voam pra trás), nem visitam flores. Elas utilizam o bico como uma pinça e capturam insetos no ar, saindo de um poleiro e retornando comumente pro mesmo poleiro”, explicou.
Ela classificou o incidente como “totalmente inusitado e inesperado”. Após o susto, Eik faz um alerta e agradece a vida.
“Temos que andar com todo o equipamento de segurança necessário e precisamos valorizar a vida”, disse, emocionado.
A ave morreu. O indígena disse que ficará com pássaro para ter uma recordação da nova chance que teve.

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G1