Por que Feira de Santana é chamada de “Princesa do Sertão”?
Apelido atribuído a Ruy Barbosa atravessa o século e revela ambições, simbolismos e contradições do crescimento urbano da cidade

Conhecida nacionalmente como a Feira de Santana, a cidade carrega um dos apelidos mais emblemáticos do interior brasileiro: “Princesa do Sertão”. Segundo relatos históricos, a expressão teria sido usada pelo jurista e intelectual Ruy Barbosa durante uma campanha política em 1919, quando percorreu municípios do interior da Bahia e exaltou a importância estratégica de Feira no contexto republicano da época.
Mais do que um rótulo turístico ou poético, o título carrega significados profundos. Ele simboliza tanto a projeção de progresso e liderança regional quanto as tensões geradas pelo crescimento acelerado e, muitas vezes, desordenado que marcaria o destino do município ao longo das décadas seguintes.
A origem do apelido
De acordo com o historiador Argemiro Filho, foi justamente o episódio de 1919 que consolidou a alcunha. À época, Ruy Barbosa, então uma das figuras públicas mais respeitadas do país, teria se referido a Feira de Santana como “Princesa do Sertão” em um discurso diante da população local, possivelmente nas proximidades da igreja matriz, enaltecendo o papel emergente da cidade no interior baiano.
O uso da expressão, no entanto, não foi exclusivo. Naquele mesmo período, o termo também apareceu associado a outras cidades, como Alagoinhas, o que indica que seu emprego tinha forte caráter retórico e político, mais do que uma definição geográfica precisa.
Consolidação no imaginário popular
Segundo o historiador Clóvis Oliveira, foi a partir da década de 1940 que o título ganhou força definitiva. A consolidação dos meios de comunicação, especialmente o rádio, ajudou a fixar o apelido no imaginário coletivo. Antes disso, Feira de Santana chegou a ser chamada de “Petrópolis Sertaneja”, denominação que acabou caindo em desuso.
A cidade nasceu como ponto de parada de tropeiros no trajeto do gado e do comércio entre o Sertão e o litoral. Sua localização estratégica — hoje um dos maiores entroncamentos rodoviários do Nordeste — impulsionou o crescimento econômico, transformando Feira em um polo de comércio, serviços e, mais recentemente, de indústria e ensino superior.
Essa vocação de “ponte” entre regiões reforça o simbolismo do título: Feira sempre foi espaço de circulação intensa de mercadorias, pessoas e ideias, características que evocam dinamismo, centralidade e liderança regional.
O título ainda faz sentido?
Para Clóvis Oliveira, Feira de Santana ainda pode ser chamada de Princesa do Sertão, desde que o apelido seja compreendido à luz das transformações históricas. O crescimento acelerado trouxe consigo problemas urbanísticos e sociais que desafiam a imagem idealizada de uma cidade harmoniosa: expansão desordenada, desigualdades na ocupação do solo e deficiências de infraestrutura.
Apesar de ser o maior município do interior baiano e deter grande relevância econômica, Feira também enfrenta os efeitos de um processo de urbanização que nem sempre acompanhou seu ritmo demográfico e produtivo.
Especialistas defendem que “Princesa do Sertão” funciona hoje menos como um título pomposo e mais como uma metáfora histórica. Ela expressa, ao mesmo tempo, a força econômica e logística do interior baiano e os paradoxos de uma cidade que ainda busca transformar seu potencial em planejamento urbano eficiente e qualidade de vida para a população.
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