Canetas emagrecedoras podem atrasar ação de anticoncepcionais e outros remédios

O uso de medicamentos agonistas do GLP-1, como semaglutida (Ozempic, Wegovy), liraglutida (Saxenda) e tirzepatida (Mounjaro), pode interferir na absorção de remédios administrados por via oral, como anticoncepcionais, analgésicos e anticoagulantes. O efeito não está relacionado à perda da eficácia total dessas medicações, mas a um atraso no início da ação, causado pela redução da velocidade de esvaziamento do estômago.

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O tema ganhou repercussão nas redes sociais após a ex-BBB Laís Caldas anunciar, em dezembro, que engravidou durante o uso combinado de Mounjaro e anticoncepcional oral. O episódio chamou atenção para um ponto pouco discutido: a possível interação entre as canetas emagrecedoras e diversos medicamentos tomados em comprimidos, não apenas os contraceptivos.

Um dos principais efeitos dos agonistas do GLP-1 é a redução do esvaziamento gástrico. Ao usar liraglutida, semaglutida ou tirzepatida, o organismo reage como se a pessoa tivesse acabado de se alimentar. A sensação de saciedade aumenta, a fome diminui e o estômago passa a esvaziar mais lentamente, mantendo o conteúdo —o que inclui os comprimidos— por mais tempo no trato gastrointestinal.

“Como o esvaziamento gástrico fica mais lento, isso pode interferir na absorção de comprimidos administrados por via oral”, explica Eduardo Lima, professor colaborador da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e cardiologista do Hospital Nove de Julho.

Segundo ele, o que muda não é a quantidade total do medicamento absorvida, mas a velocidade com que ele começa a agir.

Para drogas que precisam de efeito rápido, esse atraso pode ser relevante, porque pode criar uma janela em que o paciente fica temporariamente sem a proteção ou o efeito esperado do remédio. Já para medicamentos de uso contínuo, como antidepressivos ou remédios para pressão arterial, o impacto tende a ser menor, já que o paciente ainda está sob o efeito da dose do dia anterior.

Os dados mais consistentes sobre essa interferência vêm de estudos com a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro. Uma pesquisa publicada na revista Diabetes, Obesity and Metabolism utilizou o paracetamol como medicamento-modelo para avaliar a absorção. Os resultados mostraram que a concentração máxima do analgésico foi reduzida em cerca de 50% e que o início da ação foi retardado em aproximadamente uma hora.

“Isso não significa que o medicamento tenha perdido metade do seu efeito total, mas que o pico de concentração foi mais baixo e ocorreu mais tardiamente”, afirma Lima.

De acordo com o cardiologista, ainda não há evidências robustas de que a semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, produza o mesmo efeito de forma clinicamente relevante. Segundo o endocrinologista André Camara de Oliveira, da Sbem-SP (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia em São Paulo), apesar de teoricamente possível, estudos clínicos até agora não demonstraram uma relação.

No caso dos anticoncepcionais orais, embora o tempo total de exposição ao hormônio não pareça se alterar de forma significativa, esse intervalo inicial sem ação pode ser suficiente, dependendo do grau de fertilidade da mulher, para reduzir a segurança do método. Esse risco tende a ser maior, segundo Oliveira, nas primeiras semanas de uso da tirzepatida e durante os períodos de ajuste de dose.

A Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) recomenda que mulheres que usam anticoncepcionais orais e fazem uso de tirzepatida optem por outros métodos contraceptivos, como os subcutâneos, transdérmicos, o DIU ou métodos de barreira, como a camisinha.

Já no caso da semaglutida, a orientação é que o anticoncepcional oral possa ser mantido. Ainda assim, a federação faz uma recomendação mais ampla para que, sempre que possível, mulheres em uso de agonistas do GLP-1 optem por métodos que não dependam da absorção intestinal.

Ilza Maria Monteiro, presidente da Comissão Nacional Especializada em Anticoncepção da Febrasgo, afirma que uma revisão com seis estudos envolvendo usuárias de contraceptivos hormonais orais e drogas agonistas do GLP-1 não encontrou interação entre semaglutida ou liraglutida e os contraceptivos. Entre as usuárias de tirzepatida, porém, observou-se uma redução clinicamente relevante nas concentrações dos hormônios contraceptivos.

Outro ponto de atenção é que usuárias de agonistas do GLP-1 podem apresentar efeitos adversos como vômitos e diarreia, especialmente no início do tratamento, o que também pode comprometer a eficácia das pílulas anticoncepcionais e, eventualmente, de outros medicamentos orais.

Além da possível interferência na absorção dos anticoncepcionais, a perda de peso associada ao uso dessas medicações pode melhorar indiretamente a fertilidade, sobretudo em mulheres com obesidade ou síndrome dos ovários policísticos. A redução da resistência à insulina, da inflamação sistêmica e da concentração de testosterona no corpo tende a favorecer ciclos mais regulares e a ovulação, o que pode facilitar uma gestação não planejada.

“A Febrasgo recomenda o uso de métodos altamente efetivos, porque ainda não se conhecem plenamente os efeitos dessas drogas em uma possível gravidez. Por essa razão, recomenda-se a suspensão antes de engravidar”, afirma Ilza.

Lima acrescenta que estudos em modelos animais indicam que esses medicamentos podem afetar o crescimento do feto. Por isso, a orientação é suspender o uso imediatamente em caso de gravidez. Para gestações planejadas, a recomendação é interromper o tratamento de um a dois meses antes, sempre com acompanhamento médico.

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